iram-no à cavalo, de um lado para o outro,
pelos campos, espetando-lhe as lanças como se fosse um jogo,
eles rindo e o rapaz tropeçando e gritando, até que o grande o
trespassou.
A jovem ajoelhada ergueu a cabeça para Ned, muito acima
dela, no trono.
- Também mataram minha mãe, Vossa Graça. E eles... eles... -
a voz extinguiu-se, como se se tivesse esquecido do que ia
dizer, e começou a soluçar.
Sor Raymun Darry retomou a história.
- Em Vila Vêneda o povo procurou refúgio no castro, mas os
muros eram de madeira. Os atacantes empilharam palha
contra a madeira e queimaram todos vivos. Quando as
pessoas de Vêneda abriram os portões para fugir do fogo,
foram abatidas com setas à medida que corriam, até mesmo
mulheres com bebês de colo.
- Ah, que horror - murmurou Varys. - Quão cruéis podem ser
os homens?
- Gostariam de ter feito o mesmo com a gente, mas o castro de
Sherrer é feito de pedra - disse Joss, - Alguns queriam nos
fazer sair com nuvens de fumaça, mas o grande disse que
havia fruta madura mais acima no rio, e seguiram para o Vau
do Saltimbanco.
Ned sentiu o aço frio entre os dedos quando se inclinou para a
frente. Entre cada dedo havia uma lâmina, pontas de espadas
retorcidas que se projetavam em leque, como garras, dos
braços do trono. Mesmo após três séculos, algumas ainda
eram suficientemente afiadas para cortar. O Trono de Ferro
estava cheio de armadilhas para os incautos. Segundo as
canções, tinham sido necessárias mil lâminas para fazê-lo,
aquecidas até brilharem, brancas, pelo sopro de fornalha de
Balerion, o Terror Negro. A batedura levara cinquenta e nove
dias. E o resultado fora aquela besta negra e corcovada feita
de gumes de lâminas, farpas e tiras de metal aguçado; uma
cadeira capaz de matar um homem, e que já o fizera, se fosse
possível acreditar nas histórias,
Eddard Stark nunca conseguiria compreender o que fazia
sentado nela, mas ali estava, e aquelas pessoas buscavam nele
justiça.
- Que prova há de serem Lannister? - perguntou, tentando
manter a fúria controlada. -Usavam mantos carmesins ou
ostentavam um estandarte do leão?
- Nem mesmo os Lannister são assim tão imbecis - exclamou
Sor Marq Piper. Era um jovem garnisé arrogante, novo
demais e com o sangue quente demais para o gosto de Ned,
apesar de ser grande amigo do irmão de Catelyn, Edmure
Tully.
- Todos eles estavam a cavalo e usavam cotas de malha,
senhor - respondeu calmamente Sor Karyl, - Estavam
armados com lanças de pontas de aço e espadas longas, e
machados de batalha para o massacre - fez um gesto para um.
dos esfarrapados sobreviventes. - Você. Sim, você, ninguém
vai lhe fazer mal. Conta à Mão o que me contou.
O velho homem inclinou a cabeça.
- A respeito dos cavalos - disse -, o que montavam eram
cavalos de batalha. Trabalhei muitos anos nos estábulos do
velho Sor Willum e sei qual é a diferença. Nenhum daqueles
animais puxou algum dia uma charrua, que os deuses sejam
testemunhas do que digo.
- Salteadores bem montados - observou Mindinho. - Talvez
tenham roubado os cavalos do último lugar que saquearam.
- Quantos homens tinha esse grupo? - perguntou Ned.
- Uma centena, pelo menos - respondeu Joss, no mesmo
instante em que o ferreiro com a atadura dizia "Cinquenta" e
a avó atrás dele, "Centos e centos, senhor, eram um exército,
ah, se eram."
- A senhora tem mais razão do que pensa, boa mulher - disse-
lhe Lorde Eddard. - Dizem que não ostentavam estandartes.
Então, e as armaduras? Alguém reparou em ornamentos ou
distintivos, divisas em escudos ou elmos?
O cervejeiro, Joss, balançou a cabeça,
- Entristece-me dizê-lo, senhor, mas não, as armaduras que
usavam eram simples, só... aquele que os liderava, sua
armadura era igual à dos outros, mas mesmo assim não era
possível confundi-lo. Era o tamanho, senhor. Os que dizem
que todos os gigantes estão mortos nunca viram aquele, juro.
Era grande como um touro, era sim, e tinha uma voz como
pedra se partindo.
- A Montanha. - disse Sor Marq ruidosamente. - Poderá
alguém duvidar? Isto foi trabalho de Gregor Clegane.
Ned ouviu os murmúrios que emanaram sob as janelas e da
extremidade mais distante do salão. Até na galeria se
trocaram sussurros nervosos. Tanto os grandes senhores como
a gente simples sabiam o que poderia significar provar que
Sor Marq tinha razão. Sor Gregor Clegane era vassalo de
Lorde Tywin Lannister.
Estudou os rostos assustados dos aldeãos. Pouco admirava
que estivessem tão medrosos; tinham pensado que estavam
sendo arrastados até ali para chamar Lorde Tywin de
carniceiro perante um rei que era seu filho por casamento.
Perguntou a si mesmo se os cavaleiros lhes tinham dado
alguma escolha.
O Grande Meistre Pycelle ergueu-se solenemente da mesa do
conselho, com a corrente do seu cargo a tilintar.
- Sor Marq, com o devido respeito, não há como saber se este
fora da lei era Sor Gregor. Há muitos homens grandes no
reino.
- Tão grandes como a Montanha Que Cavalga? - disse Sor
Karyl. - Nunca encontrei nenhum.
- Nem nenhum dos presentes - acrescentou Sor Raymun em
tom acal